terça-feira, 13 de março de 2012

Daniela vai ao quadro-negro a partir de casa.

Daniela vai ao quadro-negro a partir de casa.

Há um olho mágico que todos os dias filma o interior das aulas e o transmite direto para o computador da Daniela, de 12 anos, que assiste a tudo em casa. A doença arrancou-a da escola e isolou-a entre quatro paredes. Hoje, graças à videoconferência, vê-se de novo entre os amigos do fundamental. Até vai ao quadro, ditando as respostas... ao microfone.
São 11 horas. Na pequena sala da EB2 D. Manuel de Oliveira Perpétua, em Porto de Mós, já há muito tempo que ninguém estranha a câmera colocada no alto da parede de tijolo no fundo da sala. Da mesma forma que ninguém estranha o computador sempre ligado, por onde vêem Daniela assistindo as aulas a partir de Alcobaça.
Daniela não tem defesas próprias e é portadora de uma doença neurológica, que causa uma deficiência motora progressiva e acentuada. Ou, como explica o colega Pedro, "um problema de nascença que faz com que não se consiga mover e seja muito fraquinha".
Anabela, a professora de matemática, já interiorizou a rotina. Aponta o comando à câmera e obriga-a a virar um pouco, para filmar melhor o que escreve no quadro. Com gestos rápidos, ilustra no fundo verde as noções de percentagem que vai explicando à turma do 6º. ano. E nem se perde no raciocínio, quando avança e tem que puxar o fio do microfone: "Entendeu, Daniela?", vai repetindo. "Sim", sorri a criança, na tela.
Daniela não põe o dedo no ar quando quer responder - diz "eu", ao microfone. E não escreve os exercícios do manual ou preenche com a caneta as fichas e os testes - dita as respostas à mãe ou à professora que a apóia em casa, dependendo do dia. Mas é uma aluna como qualquer outra. Ou talvez melhor. No seu boletim de notas, só há 9 e 10. E engana-se quem pense que é por ser tratada de modo especial. Quando alguém lhe pergunta "Quer ajuda?", responde "já fiz". E, nos trabalhos de grupo, a sua presença é disputada.
"A Daniela é uma lição de vida", garante Anabela. "Luta, nunca se queixa, faz sempre os trabalhos de casa, só falta se estiver muito doente", como diz Pedro.
A câmera avisa os alunos, nem sempre vira de imediato e às vezes a imagem falha, "fica toda azul". Mas não é dramático. A turma é a mesma desde o 1º. ano, quando Daniela ainda se sentava na carteira ao lado dos colegas. Depois a doença foi-se agravando e deixou de ir. Hoje, e desde Janeiro de 2005, após dois anos sem ir à escola, Daniela está de volta. E até Ricardo, o bagunceiro da turma, sabe os cuidados necessários para que a aula seja bem sucedida. "Não podemos fazer muito barulho." O que "às vezes é difícil".
"É uma turma muito humana", conta Anabela. E especial: foi à mesma que há quatro anos viu a roda de um caminhão invadir o recreio e tirar a vida a uma colega...
Benjamim Gil, o diretor da escola, não desistiu até instalar a videoconferência. Mas foi complicado, conta, "a manutenção era dispendiosa". Foi então que conseguiu um acordo com a Fundação PT, que queria testar uma nova tecnologia de tele aula e é quem cobre todos os encargos, desde o início.
Os amigos têm saudades de brincar com Daniela. E talvez por isso se empenhem tanto em incluí-la nas brincadeiras, conversando e cantando com ela ao microfone, no final da aula, ou enviando-lhe fotos de todas as atividades. É que, como confessa Ricardo, "é bom tê-la no PC, mas não é a mesma coisa".

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